entrevista técnica de júnior: o que esperar e como se preparar
A entrevista técnica de junior tem uma armadilha: você acha que tá sendo testado pelo que sabe. Você tá sendo testado pelo que faz quando não sabe.
A diferença é tudo.
o formato real (não o que você imagina)
Pra junior em empresa decente, normalmente vai ser uma dessas três coisas:
- Conversa técnica (45-60min): “me fala desse projeto”, “como você resolveria X?”, perguntas sobre a stack que você listou no CV
- Live coding (60-90min): você compartilha tela, resolve um problema de média complexidade no editor de sua escolha, com o entrevistador olhando e conversando
- Take-home (4-8h, faz em casa): um problema mais aberto, você entrega depois, e na próxima rodada vocês discutem o que você fez
O que não vai ser:
- Quicksort + reverse linked list + 3 leetcode hard num quadro branco. Isso é mais comum em FAANG, e mesmo lá tá mudando.
- Pegadinhas de sintaxe. Se o entrevistador pergunta “quantos
+tem em++a + ++a”, saia correndo. - Você defendendo cada linha de código como se fosse um exame oral. Eles querem ver você pensar, não recitar.
o que está sendo medido (de verdade)
Recrutador técnico que sabe o que tá fazendo mede três eixos em junior:
- Como você pensa quando não sabe. Você congela? Pede ajuda inteligente? Quebra o problema?
- Quão honesto você é com seus limites. “Não sei isso, mas chutaria que…” > inventar uma resposta com confiança.
- Você é uma pessoa com quem dá pra trabalhar. Você ouve, você comunica, você não é insuportável.
Notar o que não tá no top 3: “você sabe a sintaxe exata de tudo.” Sintaxe se Googla.
o protocolo de “pensar em voz alta”
Em live coding, o pior erro do junior é codar em silêncio. O segundo pior é só falar quando trava. O certo é narrar o tempo todo, mais ou menos assim:
“Beleza, então o problema pede X. Antes de começar, deixa eu confirmar: a entrada vem como Y? E o tamanho dela é mais ou menos Z? Ok. Pensando aqui, vou começar com a abordagem mais óbvia, que é (…). Sei que isso é O(n²), pode ser que o entrevistador queira algo melhor depois, mas pra começar deixa eu fazer funcionar primeiro.”
Isso te dá DOIS benefícios:
- Se você tá indo no caminho errado, o entrevistador te corrige antes de você gastar 20 minutos
- Se você acerta, ele entende que você não chegou na resposta por sorte
o que fazer quando trava
Você vai travar. É garantido. O bom é como você reage:
- Diga em voz alta: “tô travando aqui, deixa eu reler o problema.”
- Volte pro enunciado. Quase sempre você tá tentando resolver problema diferente do que pediu.
- Se ainda tá travado, peça uma dica: “to pensando em duas direções, A e B — você consegue me dizer se uma delas tá no caminho?”
- Se a dica não resolve, diga “deixa eu fazer um exemplo no papel pra ver se eu entendo o caso.” Quase sempre o exemplo te desbloqueia.
Travar sem reagir = ruim. Travar e usar o protocolo = sinal de juniores que viram seniors em 2 anos.
o que estudar antes (e o que NÃO estudar)
Estuda:
- A linguagem que você listou no CV, profundo o suficiente pra escrever 100 linhas sem Google. Loops, condicionais, funções, listas/maps, strings, leitura de arquivo, async básico (se for relevante).
- Algoritmos básicos: ordenação, busca binária, hash maps, árvore (pelo menos saber que existe BFS e DFS).
- Como ler e escrever testes na linguagem que você usa. Meio CV de junior cai porque o cara não sabe rodar um teste.
- Git: branches, commit, merge vs rebase no nível de “sei o que fazer”, não no nível de manual.
- Como debugar: print, debugger, ler stacktrace.
Não estuda (pra junior):
- Big-O de tudo o que existe. Saber que “hash map é O(1) médio, sort é O(n log n)” cobre 80% das conversas.
- Quicksort de cabeça. Você implementa um sort manual numa entrevista de junior só se for FAANG.
- “Padrões de projeto”. Saiba que existem; não decore. Em entrevista de junior raramente cai e quando cai é “quando você usaria isso?”, não “implementa um Singleton”.
- Frameworks que você não usa. Se a vaga é em React e você nunca usou Vue, não estuda Vue.
o pacote de perguntas comportamentais que SEMPRE cai
Mesmo na “técnica” cai. Prepara três respostas curtas (60-90 segundos cada) pra:
- “Me conta sobre você / sua trajetória” — não recita o CV. Conta a história: “como cheguei a programar, o que descobri que gosto, o que tô buscando agora.” 90 segundos, com uma virada interessante no meio.
- “Me fala de um projeto seu” — escolhe o projeto mais inacabado/feio em que você botou esforço real. “Inacabado” porque é onde você tem mais a contar. Estrutura: o problema, sua decisão técnica, o que deu errado, como aprendeu.
- “Por que você quer trabalhar aqui?” — NÃO “porque é uma empresa inovadora”. Vai no específico: um projeto técnico deles, a stack, o que você leu sobre como eles operam.
o que fazer 24h antes
- Dorme. Sério.
- Lê de novo o CV que você mandou — entrevistador vai perguntar sobre projeto que você listou.
- Pesquisa o entrevistador no LinkedIn. Se ele/ela é dev, você descobre que stack ele usa. Útil.
- Testa o setup: câmera, microfone, internet, IDE compartilhado se for o caso.
- Não estuda algoritmo na véspera. Você não vai aprender em 8h e vai chegar nervoso. Lê uma página de algo que te acalma.
o que fazer logo depois
- Escreve, em 30 minutos, tudo que você consegue lembrar das perguntas.
- Anota o que travou e o que você diria diferente.
- Manda email de obrigado em 24h. 3 frases, sem encheção: agradece, menciona algo concreto da conversa, diz que tá disponível pra próxima etapa. Sempre manda.
o que esperar do resultado
- Boa empresa: te avisa em 5-10 dias úteis, mesmo que seja não.
- Empresa medíocre: te ignora.
- Você não passou de uma → não significa nada sobre as próximas.
Junior bom passa em ~1 entrevista a cada 5-8. Senior bom também. Não é sobre você — é probabilidade. Manda pra mais.